Relatos sobre você ou qualquer outro

Soundtrack: Do you remember

Acho que éramos mais bonitos quando ainda éramos estranhos, quando éramos apenas sorrisos por trás de fotos, quando éramos só mistério. Éramos mais autênticos antes de virarmos dois óbvios.

Fomos mais atraentes nas épocas de sedução e conquista. Na espera do primeiro encontro sozinhos, no vinho que não acontecia a cada dia por uma razão diferente de nossas agendas independentes. Quando trabalho era mais importante do que nosso segundo beijo.

Era mais divertido quando não tinha peso, quando era pluma. Quando éramos expectativas e construções de personalidades ainda desconhecidas, e os olhares também tímidos através da mesa comprida na sala da frente.

Era mais afeto antes de virar amor. E foi muito mais amor antes de ser só distância.

O vinho derramou sobre seus lençóis e sujou o branco da tela que ainda havia de ser pintada. A primeira cerveja deu chance a confissões sinceras demais, e fra(n)quezas reveladas. O gin acabou nos apresentando personalidades muito mais diferentes do que nós havíamos esperado ou sequer imaginado. E dentro do avião que você embarcou, foi embora também o resquício daqueles dias que eram só dias antes de virarem meses, e só meses antes de virarem pesos. E a vida acabou me exigindo muito mais paciência do que eu pretendia.

Ontem eu acordei cansada. Depois de dormir um sábado inteiro, eu acordei cansada. No mesmo dia que eu cansei de você. E cansei de mim. E cansei, principalmente, de mim mesma cansando e descansando de você(s). Depois de passar 24 horas sem nada na cabeça, nas mãos ou nos olhos, eu acordei exausta, quase fraca. E resolvi deixar todos esses passados passarem, porque o hoje me parece, finalmente, muito mais bonito que o ontem.

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Desencontros

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Foi provavelmente a maior coincidência – ou crueldade do destino – da minha vida.

Esperei você por dois anos, entre lágrimas e ligações. Te pedi em silêncio que você me quisesse. Tentei de todas as formas que você viesse e me visse mais uma vez. Você veio sem saber, dezessete dias após eu dar chance a um novo amor.

Pensamos um pouco e decidimos nos encontrar no mesmo café de sempre. É sábado a noite, e a maior parte das pessoas do mundo deve estar tomando uma cerveja, mas nós dois juntos sempre optamos por café. Você pede o seu macchiato simples, o meu é duplo. Nossa mesa está ocupada, e você indica aquela ao canto, jogando a cabeça um pouco para o lado direito.

Conversamos um par de banalidades quaisquer, minhas mãos tremem como naqueles primeiros encontros. Eu brinco com o açúcar, você dá risada. Te mostrei a tatuagem no tornozelo, e você deslizou os dedos pelos traços como quem memoriza cada sombreado do desenho. Você resume o livro que terminou semana passada, eu conto como foi minha última viagem.

Te digo que quero morar na Europa. Você ri e não acredita.

O café fecha à meia noite e eu nem sabia que já era madrugada. Você me abraçou no estacionamento e eu congelei. Não sei muito bem como eu saí do seu abraço e entrei na sua boca. As memórias voltam como se nunca tivessem ido. Você ainda vira a cabeça para o lado errado quando beija, e eu ainda dou risada quando fico nervosa. Você lembra, mesmo que inconsciente, que eu derreto quando você segura meu rosto assim.

Você me chama pra ir para a sua casa. Eu penso. Repenso. Aonde foi parar a minha impulsividade? Devo ter deixado na gaveta de meias. Te olho no fundo dos olhos e invento uma besteira qualquer. Te levo pra casa, te abraço e te olho mais uma vez. Você sai do carro com as mãos nos bolsos, como sempre, deixando seu perfume dentro do carro e de mim.

Olhando pra você agora, de costas se afastando, eu percebo. Eu sei que essa foi a nossa última vez, o nosso último café, o nosso último amor.

Amor sísmico

Soundtrack: Touch

Eu sei que eu nunca vou ser uma pessoa qualquer na sua vida, e que eu nunca vou deixar de respirar por dois segundos ao ver um nome igual ao seu rolando nos créditos de um filme na TV. Sei que vivemos algo bonito, que foi tirado da gente na parte mais doce da mordida. E sei que nós dois guardamos o que foi bom, e embora a gente evite dar nomes de impacto às nossas emoções, esse sentimento puro e tão lindo vai sempre existir entre nós. A gente nunca vai esquecer um do outro, moço.

Só que eu sei também que, apesar de especial, nunca vai ser suficiente pra te fazer deixar um pouco de lado essa frieza calculista que domina seus impulsos. E que as nossas vidas foram muito sincronizadas durante um curto espaço de tempo, mas agora você é só água e eu sou um dos líquidos mais densos que existem por aí. Se você decidisse ser meu por mais um tempo ou dois, eu sei que eu acabaria parando de escrever e você de desenhar. Você deixando de criar e eu de sonhar.
Eu sei, meu bem, que se a gente tentasse ficar juntos de novo o mundo entraria em colapso e o nosso encontro causaria um terremoto do outro lado do oceano. Então, pelo bem da humanidade, tudo bem. Eu também acho melhor que a gente continue nossos caminhos eternamente paralelos e evite um desastre tectônico na vida de alguns asiáticos que levam suas rotinas tranquilas doze horas a frente de nós.
Depois de tanto tempo e tanta ausência, ficou difícil distinguir o hábito de te amar da ação por si só. Talvez hoje já me faltasse disposição pra aguentar sua velhice careta aos 28 anos de idade, implicando com o meu lado menina-intensa-de-25. Talvez a gente nem falasse mais de amor às seis da tarde, enquanto pensa em qual seria o melhor restaurante para ir à noite. Talvez o que antes eram rosas e melodias agora me entediasse, e talvez você fosse meio amargo demais para a minha vida de açúcar e sorrisos soltos. Ou talvez, enfim, você não passe de uma utopia, uma idealização minha que nem você mesmo consegue atingir.

Talvez, talvez.

Mas fica por aí, viu? Não voa muito longe porque o carinho morre tão pouco quanto nossas memórias, e eu ainda gosto de saber dos barulhos que você ouve de vez em quando. Acho que, no fim das contas, a gente não vai matar ninguém por se querer bem a um estado, três anos e duas vidas de distância. Concorda?

Paradoxos

Soundtrack: We can be ghosts now

Acordo, passo 8 minutos e 37 segundos me enrolando nos gatos, me espreguiço, ligo a TV. Mas o que é que mudou?

Tomo banho, passo creme, 9 minutos olhando fixo o armário procurando uma roupa, xingo o apresentador do jornal, mamão, suco de laranja, máscara nos cílios, tiro o gato de dentro da pia, secador, silicone nos cabelos, escolho outra roupa, batom vermelho, beijo nos gatos. Tem algo diferente, não tem?

Desço as escadas, esqueço o óculos, subo as escadas.

Ligo o rádio, dirijo sem prestar atenção no caminho, cantarolo em voz alta uma melodia conhecida, alguém buzina, mudo a estação, dou risada de mim mesma por ainda ouvir rádio no carro. Procuro uma vaga, café preto, trabalho, almoço, trabalho, mais café. Mas o que é que eu estou estranhando?

Jantar com as amigas, risadas, vinho, será que eu peço um doce?, mais risadas, fofocas, planos, viagens, lembranças, amores.

Sorrio.

Nada. Não tem nada faltando. Mas às vezes precisamos deixar algo ir para nos sentirmos inteiros novamente. Às vezes, mesmo sem nada nos prendendo, criamos correntes em lugares vazios, e a sensação de deixar passar é uma das coisas que mais preenche nosso espírito. Renovar as energias e arrumar a bagunça da alma. É como a tristeza existencial ao ler o último ponto final de um livro, e ansiar na mesma intensidade o próximo autor a ser degustado. Dizem por aí que o ano novo só começa depois do carnaval. O meu primeiro de janeiro vem com energias lindas, e existe ainda uma estante inteira de livros a serem descobertos.

Hoje é dia de Maria

Toda mulher é um pouco Maria. Maria Rita, Maria Fernanda, Ana Maria, Mariana.

Maria é história, é ser três vezes estrela. Ser Maria é ser independente, puramente brasileira. É mãe, filha e a responsabilidade de carregar consigo o nome de outras gerações. É ser menina e mulher em um nome só. Tenho observado que Maria é também sinônimo de teimosia. Deve ser porque rima.

Maria é a lembrança daquilo que um dia foi, tanto que o nome já veio no pretérito. E é tão intensa e inconstante, que oscila entre e o imperfeito e o mais que perfeito. Vai entender…

Maria tem pai, irmão, família, e tem também vontade de fugir de tudo isso de vez em quando. Discute, briga, se impõe. Depois chorominga, arrasta os pés. Depois levanta a cabeça, se maquia e vai sorrir. Queria chorar, mas finge que é dona de coração sem dores. Mas quando chora seus temporais, abraça a mãe de um jeito que só duas Marias sabem como é. Tudo bem, nessas horas ela empresta um pedacinho do seu Maria para a irmã. Bia vira Maria. Maria Bia.

Maria ama. Se pudesse, até amaria mais. Mas, às vezes, parece que nem cabe mais amar dentro de uma só Maria.


Obrigada a minha Maria Cristina, por me amar-iar também.

World War III

Há meses me pego abismada ao contemplar a situação do mundo atualmente. A cada novo escândalo, desastre natural ou mortes absurdas, eu falo pra mim mesma “é, agora a coisa chegou no fundo do poço”. Mas ela piora. Um dia ou uma semana depois, acaba sempre piorando.

Eu não sei se eu tinha uma visão mais infantil do mundo há um ano ou dois, mas me parece que tudo se afundou em um espaço de tempo curto demais. Estamos correndo em direção a um abismo, cada vez mais perto, andando quase na beirada. As pessoas perderam completamente a compaixão e o respeito pelo próximo. E não digo isso em âmbitos cristãos, mas em questão de boa convivência entre indivíduos, de tolerância e paz. Não se pode mais ser diferente, só que ser igual a um te faz automaticamente diferente de outro.

Fora a intolerância à opinião alheia, cada vez mais presente e mais próxima a nós. Discursos de ódio escritos diariamente por nossos conhecidos em redes sociais. Raivas políticas. Indiferença à morte. Do outro lado do oceano, apologia à tortura, assassinatos televisionados e a mídia alimentando o ego de criminosos desesperados por atenção, transformando o Jornal Nacional na nova novela das oito, direção de William Bonner.

Morrem artistas, traficantes, crianças, inocentes, condenados, prisioneiros, idosos. Quem defende um, pune os que entendem o outro. Se você tem compaixão por uma vida tirada de forma brutal que infelizmente está de acordo com leis de outro país, então automaticamente você é cego às vidas que são perdidas diariamente nas favelas brasileiras. Quem pede clemência se faz culpado por isso. Se não pedisse, seria taxado de indiferente. Compaixão virou utopia, palavra em extinção. Ninguém entende que, independente do contexto, uma vida é uma vida, e não cabe a nenhuma pessoa, organização ou lei exercer qualquer tipo de poder sobre isso. Ninguém tem o direito de tirar a vida de ninguém. Ninguém tem o direito de rir da morte de ninguém.

E no meio de tudo isso, quem é que enxerga que a falta de água em São Paulo, dentre tantos outros desastres naturais, é um grito de socorro de um planeta desesperado? Sendo tão assassinado por toda a população mundial, bem como as crianças são assassinadas pelo tráfico, os cartunistas pelos terroristas islâmicos e o traficante pelo governo indonésio? Ninguém. Ninguém enxerga, porque ali na frente de seus computadores de maçã, a notícia ainda mora longe.

Bem-vindos, meus amigos, à terceira guerra mundial. Onde não há mais dois lados lutando entre si, mas um mundo multipolarizado em densas esferas culturais, religiosas, demográficas, étnicas. Lutando uns contra os outros, contra si mesmo, contra a natureza. Uma guerra online, onde a fácil comunicação contribui na formação de grupos radicais que pregam o ódio e a morte, onde a raiva é disseminada diariamente, onde a informação é contada conforme for conveniente. Uma guerra que ainda não pode ser nomeada. Mas que nem por isso deixa de ser real.

Volta, moço.

Soundtrack: La Vie en Rose

Volta, que eu te compro alguns sonhos, mostro algumas das cartas que te escrevi, te abraço em silêncio e te levo jantar. Volta, que tem tanto filme que falta pra gente assistir, tanta música nova que eu conheci e acho a sua cara, tanta vida em mim que eu sonho em dividir com você.
Você precisa conhecer meus gatos, meus amigos, mas eu te poupo da família se você preferir. E tem também aquele café novo que abriu perto do restaurante na esquina e eu nunca consegui levar ninguém, porque aquele lugar já era nosso antes mesmo de ser. Então volta, e me olha de novo, que eu acho que ninguém nunca me olhou daquele jeito que só teu olhar rasgado e observador sabe ter.

Volta, mas fica, viu?

Promete que fica, e eu deixo o cabelo crescer de novo, tiro as mechas coloridas que você não gosta e tento ser menos chorona e desligada. Fica, que eu sou boazinha quando me apaixono ( sabe), aprendi a dirigir um pouco melhor e agora até sei cozinhar alguns pratos que minha mãe me ensinou (e eu vou pegar leve na pimenta, prometo). Desde aquela época nunca ninguém pegou o lugar que você ocupava, e eu até tentei matar o pedaço teu que mora em mim, mas acho que eu fui meio fraca para a tua lembrança forte demais.

Se você ficar eu vou sossegar, moço. Se você voltar, eu prometo que fico também.

Despedida e recomeço.

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Hora de colocar o ponto final em mais um ano. Daqueles bem lindos, o melhor da minha vida.

Um dos mais “difíceis” também. E uso as aspas porque não quero colocar nenhum contexto negativo em nada do que foi vivido. Foi um ano de provações e de auto-conhecimento. Ano de crescer e cortar algumas amarras. Tive dificuldades e passei por situações que nunca imaginei passar, mas quem é que não sente isso a cada 365 dias, não é?

Comecei janeiro de 2014 a 15 mil quilômetros de distância das pessoas que eu mais amo no mundo. Conheci novas culturas e descobri novas paixões. Fiquei sozinha. Tracei alguns planos. Errei. Experimentei coisas novas. Fiz amigos que viraram minha segunda família. Me decepcionei. Chorei sozinha dentro de um ônibus lotado de alemães que me olhavam estranho. Aprendi a ser mais sociável e aberta a novas amizades. Me despedi do lugar mais lindo do mundo e das pessoas mais incríveis. Chorei de tanto rir. Ri pra não chorar. Voltei para o Brasil e dei com a cara no muro. Senti saudade. Me escondi do mundo. Li livros sensacionais. Coloquei um fim em relações que não me faziam bem. Vi a derrota do Brasil na copa, e fui consolada pela vitória da minha Alemanha. Adotei uma família de gatinhos. Voltei para o mundo aos poucos. Conheci mais pessoas incríveis. Encontrei amigos que eu não via há tempos, e vivi mais uma vez o amor que eu sentia e ainda sinto por eles. Criei novos hábitos. Me envolvi com novas pessoas. Tomei coragem de mostrar para o mundo alguns dos meus mimimis escritos. Voltei a caminhar com as minhas próprias pernas, a passos curtos, mas com um destino em mente. Descobri que ainda consigo me apaixonar. Mas ainda não foi esse o ano de aprender a gostar de Bob Dylan…

De tudo isso, sobra o aprendizado. Cresci muito e entendi muito sobre mim mesma.
A vida vale a pena nas menores coisas, e quando aprendemos a olhar esses detalhes é quando temos paz dentro de nós mesmos. Essa é a época de renovação. De deixar no ano que vai passar tudo aquilo que eu quero que passe também, e colocar em listas imaginárias o que eu quero manter e conquistar.

Ficou para trás o ano de Berlim, da vida dos sonhos, do descobrimento do mundo. Dois mil e quinze tem a grande responsabilidade de superar tudo isso.
Mas sabe o que?

Aguardo ansiosa.

Esgotamento

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Eu já tentei ser teu flerte, tua amiga, teu tormento. Teu compromisso, teu desprendimento. Eu já tentei te amar, me moldar; já tentei falar e tentei me calar. Eu tentei te prender, depois tentei eu mesma fugir. Primeiro tua melhor companhia, depois teu próprio inferno pessoal.

Eu tentei te afastar, te deixar passar.

E agora eu não quero mais tentar.
Dessa vez eu acho que só queria entender.

Não posso te perguntar porque você não sai da minha cabeça. Você não sabe, não é aqui que você quer morar. Não posso te pedir explicações por você permanecer na minha vida, porque você não faz nada para aqui ficar.

Não tem muito o que fazer. Me resta caminhar e parar de pensar.

O amor que não foi.

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Ele se apaixonou perdidamente, e ela ficou apreensiva. Pensou por um momento ou dois. Por um mês ou dois. E num vislumbre de dúvida, viu-se mergulhando de cabeça em novos (m)ares.

Aos poucos foi conhecendo sua vida, seus discos e filmes preferidos. Sua mãe, seu cachorro. O mundo dele era cheio de peculiaridades que ela queria beber com os olhos. Atentava-se a cada gesto e olhar. Observava cada vez que sua respiração acelerava junto ao compasso de seu coração. Tentou aprender sobre ele o máximo que podia nos meses que ainda estavam por vir. Paixões com data para acabar carregam consigo um quê de inconsequência atraente. Não há tempo para jogos de conquista, os minutos que correm só permitem que sejam sinceros e se mostrem em seu estado mais puro e autêntico.

Viraram melhores amigos, melhores amantes. A vida era cheia de oportunidades, risadas, conversas, loucuras. Casaram na informalidade de seus pensamentos. Combinaram de desacelerar os próprios corações semanas antes da despedida, mas quem no mundo consegue manter esse tipo de promessa? Não eles, que carregam o calor do sol e a intensidade do mar dentro de si. Correram os dois em alta velocidade, em direção ao muro de concreto que traduzia os milhares de quilômetros entre eles.

Ela viu a queda, as dores, os hematomas e as cicatrizes que a esperavam de braços abertos no desembarcar de seu voo.

No mesmo vislumbre de dúvida, optou por recuar. Privou-se do amor e das histórias bonitas. Mas também se preservou da dor, e entrou no avião sem despedidas dramáticas ou lágrimas de saudade. Só mais uma partida entre as muitas naquele aeroporto.