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Andou pela praça a passos curtos. Sentou perto da grande fonte e, suspirando, arrancou os fones do ouvido.

– Por que é que você não me disse a verdade? “Eu não gosto mais de você”. Eu parecia assim tão frágil a ponto de não aguentar esse pé na bunda? Esse tapa na cara? Você tinha que ter me falado, me avisado, porque aí agora eu não estaria com a minha própria existência entalada na garganta, enquanto meu estômago decide se eu me engulo ou se me vomito de vez.

Silêncio.

– Você entende? Eu não to nem aí pra o que você sente ou pensa de mim agora, mas foi uma falta de respeito me deixar cega assim. Você devia ter me traído, gritado, me pedido pra ir embora. Mas não isso. Não se esconde um desamor assim. Minha cabeça tá me enlouquecendo tentando descobrir qual foi o dia que você acordou, tomou o primeiro ar da manhã no cabelo bagunçado, olhou pro lado e decidiu que eu não era mais suficiente.

Silêncio.

– Da vontade de gritar, sabe? Bem aqui no meio da praça. Te amaldiçoar, mandar esse vento gelado que bate no meu rosto pra dentro do seu coração. Queria gritar no teu ouvido o que o Cazuza sussurra nos meus fones, e te provocar as mesmas lágrimas. Queria te culpar pela minha nova loucura, mas no fundo eu sei. Eu sei que eu já era metade, antes mesmo de você.

Silêncio.

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