Ah, meu bem. Quem se enganou foi você.

Você acreditou nos meus olhares tímidos, nas palavras doces, nas risadas descontraídas. Você se deixou levar pelo meu jeito meio-impulsivo-meio-inconsequente quando eu te beijei antes que você tomasse coragem para o fazer você mesmo.

Você só não percebeu que esses atos impensados são traços daqueles que já se entregaram demais, e não têm mais o que perder.

Você acreditou na minha timidez de quem se encanta, na minha voz falha de quem se apaixona, na minha disposição de quem está se deixando levar.

Mas eu deixei de te contar que novas paixões já não me derrubam mais, e que eu mantenho sempre meus dois pés andando um passo atrás da minha própria sombra. Que por maior que seja minha entrega, minhas quedas viram voos.

Você achou sincero quando eu disse que queria ficar até os passarinhos anunciarem o amanhecer, quando eu te chamei pra conhecer meus filhos e minha vida. Acho que era mesmo. Minhas palavras são convincentes, não são? Às vezes até eu acredito em mim mesma. Mas por andarem tão perto da honestidade, não são necessariamente palavras a serem levadas ao pé da letra.

Os beijos não eram só teus, meu amor. Quem é habituado a lidar com despedidas vira dono de coração sem dono. E o meu já é bem calejado, então fica tranquilo.

Vão-se os amores, ficam-se as dores.

Pode acreditar nas lágrimas e na paixão, até nesse quê de desespero dos últimos dias. Mas os capítulos do meu livro não são só sobre você. Eu sobrevivo, continuo sobrevivendo. E os olhares, a timidez, a voz doce de apaixonada sempre vão ter algum outro dono, em algum outro momento.

Não me odeia, meu bem, mas eu to acostumada. Quem se enganou foi você, e quem sabe do resto sou eu.

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