Há meses me pego abismada ao contemplar a situação do mundo atualmente. A cada novo escândalo, desastre natural ou mortes absurdas, eu falo pra mim mesma “é, agora a coisa chegou no fundo do poço”. Mas ela piora. Um dia ou uma semana depois, acaba sempre piorando.

Eu não sei se eu tinha uma visão mais infantil do mundo há um ano ou dois, mas me parece que tudo se afundou em um espaço de tempo curto demais. Estamos correndo em direção a um abismo, cada vez mais perto, andando quase na beirada. As pessoas perderam completamente a compaixão e o respeito pelo próximo. E não digo isso em âmbitos cristãos, mas em questão de boa convivência entre indivíduos, de tolerância e paz. Não se pode mais ser diferente, só que ser igual a um te faz automaticamente diferente de outro.

Fora a intolerância à opinião alheia, cada vez mais presente e mais próxima a nós. Discursos de ódio escritos diariamente por nossos conhecidos em redes sociais. Raivas políticas. Indiferença à morte. Do outro lado do oceano, apologia à tortura, assassinatos televisionados e a mídia alimentando o ego de criminosos desesperados por atenção, transformando o Jornal Nacional na nova novela das oito, direção de William Bonner.

Morrem artistas, traficantes, crianças, inocentes, condenados, prisioneiros, idosos. Quem defende um, pune os que entendem o outro. Se você tem compaixão por uma vida tirada de forma brutal que infelizmente está de acordo com leis de outro país, então automaticamente você é cego às vidas que são perdidas diariamente nas favelas brasileiras. Quem pede clemência se faz culpado por isso. Se não pedisse, seria taxado de indiferente. Compaixão virou utopia, palavra em extinção. Ninguém entende que, independente do contexto, uma vida é uma vida, e não cabe a nenhuma pessoa, organização ou lei exercer qualquer tipo de poder sobre isso. Ninguém tem o direito de tirar a vida de ninguém. Ninguém tem o direito de rir da morte de ninguém.

E no meio de tudo isso, quem é que enxerga que a falta de água em São Paulo, dentre tantos outros desastres naturais, é um grito de socorro de um planeta desesperado? Sendo tão assassinado por toda a população mundial, bem como as crianças são assassinadas pelo tráfico, os cartunistas pelos terroristas islâmicos e o traficante pelo governo indonésio? Ninguém. Ninguém enxerga, porque ali na frente de seus computadores de maçã, a notícia ainda mora longe.

Bem-vindos, meus amigos, à terceira guerra mundial. Onde não há mais dois lados lutando entre si, mas um mundo multipolarizado em densas esferas culturais, religiosas, demográficas, étnicas. Lutando uns contra os outros, contra si mesmo, contra a natureza. Uma guerra online, onde a fácil comunicação contribui na formação de grupos radicais que pregam o ódio e a morte, onde a raiva é disseminada diariamente, onde a informação é contada conforme for conveniente. Uma guerra que ainda não pode ser nomeada. Mas que nem por isso deixa de ser real.

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