Soundtrack: We can be ghosts now

Acordo, passo 8 minutos e 37 segundos me enrolando nos gatos, me espreguiço, ligo a TV. Mas o que é que mudou?

Tomo banho, passo creme, 9 minutos olhando fixo o armário procurando uma roupa, xingo o apresentador do jornal, mamão, suco de laranja, máscara nos cílios, tiro o gato de dentro da pia, secador, silicone nos cabelos, escolho outra roupa, batom vermelho, beijo nos gatos. Tem algo diferente, não tem?

Desço as escadas, esqueço o óculos, subo as escadas.

Ligo o rádio, dirijo sem prestar atenção no caminho, cantarolo em voz alta uma melodia conhecida, alguém buzina, mudo a estação, dou risada de mim mesma por ainda ouvir rádio no carro. Procuro uma vaga, café preto, trabalho, almoço, trabalho, mais café. Mas o que é que eu estou estranhando?

Jantar com as amigas, risadas, vinho, será que eu peço um doce?, mais risadas, fofocas, planos, viagens, lembranças, amores.

Sorrio.

Nada. Não tem nada faltando. Mas às vezes precisamos deixar algo ir para nos sentirmos inteiros novamente. Às vezes, mesmo sem nada nos prendendo, criamos correntes em lugares vazios, e a sensação de deixar passar é uma das coisas que mais preenche nosso espírito. Renovar as energias e arrumar a bagunça da alma. É como a tristeza existencial ao ler o último ponto final de um livro, e ansiar na mesma intensidade o próximo autor a ser degustado. Dizem por aí que o ano novo só começa depois do carnaval. O meu primeiro de janeiro vem com energias lindas, e existe ainda uma estante inteira de livros a serem descobertos.

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