Engano nosso, meu bem.

Ah, meu bem. Quem se enganou foi você.

Você acreditou nos meus olhares tímidos, nas palavras doces, nas risadas descontraídas. Você se deixou levar pelo meu jeito meio-impulsivo-meio-inconsequente quando eu te beijei antes que você tomasse coragem para o fazer você mesmo.

Você só não percebeu que esses atos impensados são traços daqueles que já se entregaram demais, e não têm mais o que perder.

Você acreditou na minha timidez de quem se encanta, na minha voz falha de quem se apaixona, na minha disposição de quem está se deixando levar.

Mas eu deixei de te contar que novas paixões já não me derrubam mais, e que eu mantenho sempre meus dois pés andando um passo atrás da minha própria sombra. Que por maior que seja minha entrega, minhas quedas viram voos.

Você achou sincero quando eu disse que queria ficar até os passarinhos anunciarem o amanhecer, quando eu te chamei pra conhecer meus filhos e minha vida. Acho que era mesmo. Minhas palavras são convincentes, não são? Às vezes até eu acredito em mim mesma. Mas por andarem tão perto da honestidade, não são necessariamente palavras a serem levadas ao pé da letra.

Os beijos não eram só teus, meu amor. Quem é habituado a lidar com despedidas vira dono de coração sem dono. E o meu já é bem calejado, então fica tranquilo.

Vão-se os amores, ficam-se as dores.

Pode acreditar nas lágrimas e na paixão, até nesse quê de desespero dos últimos dias. Mas os capítulos do meu livro não são só sobre você. Eu sobrevivo, continuo sobrevivendo. E os olhares, a timidez, a voz doce de apaixonada sempre vão ter algum outro dono, em algum outro momento.

Não me odeia, meu bem, mas eu to acostumada. Quem se enganou foi você, e quem sabe do resto sou eu.

Os bons morrem jovens…

… não é?

Domingo uma dessas almas iluminadas cumpriu sua missão na terra e resolveu partir. Deixou um sentimento forte, uma saudade coletiva. A cidade inteira compartilha a mesma dor. Os sentimentos vão além de uma família agora incompleta, e estendem-se a todos.

Em meio à reclamações sobre política, segunda-feira, trabalho ou outra banalidade qualquer, a vida nos chacoalha e exige que cada um de nós pare pra refletir sobre o seu valor. Que prestemos mais atenção naqueles que temos por perto. A vida é um sopro, e morrer também é.

Eu nunca entendo a morte quando ela surge. Sempre acho estranho que alguém não esteja mais aqui, e o resto do mundo continue acordando, dormindo e levando suas vidas normalmente no meio disso. Parece tão passageiro e tão opressivo ao mesmo tempo. Mas não dessa vez. Dessa vez não desce. A vida de ninguém ao meu redor está indiferente. Perdemos um amigo de todos, uma dessas almas boas que a gente nem sempre encontra por aí. Um sorriso amigo, uma bondade inerente. Da vontade de dizer, implorar “poxa, volta que eu não te dei tchau, volta que eu quero aproveitar mais o tempo e rir mais com você”. Parece mentira.

Vai com Deus, querido. Uma pessoa como você não precisava de mais tempo nesse mundo pra cumprir sua missão. Tenho certeza que você está em algum lugar no mínimo dez vezes melhor que aqui.

2006, meu aniversário

Saudade.

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Saudade de um amigo, de um parente, de um cheiro, uma rotina, uma cidade. Saudade de quem está tão longe, e ainda assim tão perto. E de quem está tão perto, mas tão longe. De quem partiu, de quem já vai voltar, de quem não volta mais. Saudade de uma parte da nossa vida ou de uma sensação sentida. Saudade que se confunde com nostalgia, ou nostalgia que se confunde com saudade.

Saudade que dá vontade de chorar, que dá vontade de sorrir. Que aperta tanto, que dá vontade de nem lembrar.

Enfim…

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A vida anda colocando reticências longas no lugar das minhas vírgulas ansiosas. Tenho achado o tanto pouco, mas o pouco às vezes tem me sido suficiente.

Tenho prestado atenção nos detalhes, tento beber aos poucos todas as peculiaridades que a vida me apresenta. Mas meu instinto passional não me deixa degustar. Me embebedo rápido e acordo numa ressaca de amor à vida, no exagero dos meus dramas. Vinte e quatro horas me recuperando da minha própria intensidade.

Reconheci meus próprios exageros, e aprendi a gostar das coisas como elas são.

Paz. Acho que o nome deve ser esse, enfim.

Monólogo.

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Andou pela praça a passos curtos. Sentou perto da grande fonte e, suspirando, arrancou os fones do ouvido.

– Por que é que você não me disse a verdade? “Eu não gosto mais de você”. Eu parecia assim tão frágil a ponto de não aguentar esse pé na bunda? Esse tapa na cara? Você tinha que ter me falado, me avisado, porque aí agora eu não estaria com a minha própria existência entalada na garganta, enquanto meu estômago decide se eu me engulo ou se me vomito de vez.

Silêncio.

– Você entende? Eu não to nem aí pra o que você sente ou pensa de mim agora, mas foi uma falta de respeito me deixar cega assim. Você devia ter me traído, gritado, me pedido pra ir embora. Mas não isso. Não se esconde um desamor assim. Minha cabeça tá me enlouquecendo tentando descobrir qual foi o dia que você acordou, tomou o primeiro ar da manhã no cabelo bagunçado, olhou pro lado e decidiu que eu não era mais suficiente.

Silêncio.

– Da vontade de gritar, sabe? Bem aqui no meio da praça. Te amaldiçoar, mandar esse vento gelado que bate no meu rosto pra dentro do seu coração. Queria gritar no teu ouvido o que o Cazuza sussurra nos meus fones, e te provocar as mesmas lágrimas. Queria te culpar pela minha nova loucura, mas no fundo eu sei. Eu sei que eu já era metade, antes mesmo de você.

Silêncio.

Quem diria.

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Você cresceu em mim de um jeito insuspeitado.

E eu sei que essa frase não só não é minha, como também é clichê pra caramba, mas não achei palavras melhores. E, mais que isso, você cresceu em mim de uma forma nova. Abriu espaço por um caminho que ainda não existia.

Talvez a gente não case. Talvez a gente nem namore.

Mas de repente estar com (alguém como) você me pareceu melhor do que o resto. E eu, pela primeira vez na vida, não quis estar com um par de olhos que me faz mal, porque seus olhos pequenos me parecem mais gentis do que o olhar felino de um cafajeste qualquer.

Você me despe de roupas ou palavras tanto quanto eles, mas tem toda uma maestria no convencimento. Você é quieto e na sua de um jeito doce que me faz enlouquecer pensando que talvez você não me queira ou não precise de mim. Eu não sou teu troféu, você não me desfila por aí. Você não precisa mesmo de mim, admito. Mas parece que aguarda com cautela o meu tempo de precisar de você também. Assim não tem eu louca por você sozinha, nem você louco por mim solitário. Eu sempre gostava demais ou de menos e decidi que essa historinha toda começou a me dar preguiça, e viver um amor confortável me pareceu tão mais atraente…

Carta aberta ao mundo, menos a você.

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Ei, Schatz.

O que foi aquilo, hein? Esperei nove meses, para conhecer você na última semana. Sem ideias românticas, eu sei. A gente não teria casado, tido dois filhos e um pastor alemão. Nem se eu tivesse te conhecido no primeiro dia, nem no último.

Mas o que foi aquilo?

Eu lembro do gosto específico e da frase engraçada que você soltou pra mim, logo de cara. Lembro das mensagens. Você estava estudando e eu perdendo a cabeça com a minha irmã. E quando eu fiquei sozinha, justo nos dias que antecederam sua prova, você ficou comigo.

E me mostrou aquele lado da cidade que, mesmo nos meses anteriores, eu não tinha conhecido. A cerveja, o drink de passion fruit. Você pegou outra linha do metrô pra me acompanhar mais alguns minutinhos. Corrigiu minha pronúncia naquele nome tão importante e até conheceu dois ou três amigos meus.

É. Na noite anterior ao seu exame e ao meu voo, você ficou comigo. E eu nem acreditava, porque a gente não era um casal. Nem apaixonados estávamos. E você ficou ao meu lado em uma das noites mais difíceis da minha vida. E, o mais bonito, só me olhando enquanto eu dormia desajeitada nas cadeiras do aeroporto.

Obrigada por isso. Obrigada pelo amendoim também. E por ter me acordado, preocupado que eu perdesse a hora do embarque aos primeiros ruídos do dia.

Te levo no coração, Schatz. Mesmo sem as ideias românticas. Nessa intensidade toda de quem não se conhece direito.

Divagações…

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Eu finjo que não, mas eu penso.

Fiz dois piercings e seis furos na orelha, mas eu fico pensando.

Depois eu fiz duas tatuagens, e eu nem pensei muito. Mas pensei um pouquinho.

Aí eu pintei o cabelo de azul e depois de verde, e depois sabe deus qual cor vai ser, e quem vê pensa que eu nem penso. Mas eu penso.

Eu sou desbocada, falo palavrão, digo que não to nem aí, choro na frente de todo mundo, depois tomo uma cerveja e saio falando besteira, rindo com o rosto ainda meio molhado. E aí… Eu penso.

Eu escrevo, publico, tiro a roupa. Mas penso muuuuito.

Às vezes eu minto. Omito. Todo mundo sabe que não é verdade, porque eu não sei mentir. Eu finjo que não sei que eles sabem, enquanto eles fingem que não sabem. E aí eu continuo pensando…

Porque afinal, o que será que eles pensam, né?

Pronto, falei.

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E me irrita tanto ver que você tá feliz e sorrindo mais com a sua nova-antiga namoradinha magrela do que sorria comigo e as minhas compulsões alimentares.

As fotos juntos, na esquina da sua casa, no pôr-do-sol do Rio de Janeiro, um domingo na rua, sua cara blasé se escondendo atrás de uma xícara de café já morno.

Mas na verdade é um insulto, porque eu também tô mais feliz agora do que quando tava com você, mas ainda assim é menos feliz do que você parece estar. E em que mundo uma pessoa assim como eu, meio intensa demais, iria admitir um absurdo desses?

Ninguém mudou.

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Seus amigos não mudaram, sua família não mudou, a programação da TV não mudou. O mundo continua girando na mesma velocidade, no hemisfério norte continua sendo a estação oposta à do hemisfério sul. As pessoas continuam nascendo e morrendo, e levando suas vidas (que não mudaram) entre os dois.

Você mudou.

Seu mundo, que cabe numa caixa de sapato aos olhos de qualquer outro, mudou. Virou de ponta cabeça, com a caixa destampada, e esparramou-se pelo universo. E você está aí, tentando juntar os pedaços e reorganizar na mesma caixa, no mesmo formato.

Não existe mudança física que materialize o tamanho do que aconteceu.

Não existe cabelo pintado, roupa nova, piercing, tatuagem, perda ou ganho de peso que coloquem em palavras o que se passou dentro de você. Não existe música que traduza ou filme que reproduza. Não há palavras que expliquem, nem ninguém que entenda. Só você, na sua caixa de sapatos.